Vingança!

Helena, veja! Vem à janela divertir-se como eu! Corjas apinham-se como abutres prontos a nos arrancar os olhos! Rasgam as próprias vestes pelo que revelamos em seus espíritos medíocres. Praguejam vorazmente a nossa mãe por nos dar a Luz e gritam que nosso pai jaz do maligno. Ah! amada irmã, delicie-se: somos as filhas da Estrela da Manhã! Amaldiçoam-nos por despertarmos as bestas escondidas entre suas pernas que urram pelo adocicado cheiro do cio. Queimam nossos escritos, mas não lhe tiram os olhos — desejam mesmo é devorá-los letra a letra, jorrar gozos eternos em nossos corpos incorruptíveis dito profanos por suas falas hipócritas. Venha amada, deixe-te beijar os seios para que as iras ejaculem por suas bocas. Isso, minha Helena... permita que me vejam perder-se em tua pele alva por toda a existência.
Vós é que sois libertinos, cegos e imundos! Julgam-nos como inquisidores, pensam ser os senhores da verdade, mas o que almejam insanamente é embriagarem-se até que não nos reste uma gota sequer e, frustrados, apedrejam-nos sabendo que jamais possuirão nossos vermelhos lírios. Vós sois o próprio asco!
Arrependei-vos? Nós somos a Redenção! Vossos segredos intensos, viçosos, tomam-nos os lábios; tragamos pela nossa escrita a pele de vossos pensamentos: tuas almas condenadas, tuas vidas ocultas que nos elevam e preenchem. Minhas cativas crianças... murmuramos sobre tuas carnes ternas e feridas e revelamos vossas agonias noturnas. Vemos vossas pupilas dilatadas e o movimento contínuo das mãos bulindo o corpo — que explode em engano e engodo dessa existência moribunda, que é a vossa. Somos a que traz vida sob vossas castradas misérias.
Desejam que temamos o fogo? Covardes! Pois que não reconheceis em vós mesmos a ânsia fremente que despertais. Não sabeis (nenhum de vós, púberes ignorantes) o quão alto e idílico é este despertar de vossas vestes. Soubésseis! Soubésseis... Preferiríeis estar em nosso lugar, sob os acoites dóceis que nos infligis, vertendo este sangue que pactua os nossos – e os vossos – desejos... Ah! mas é doce esta manifesta imolação, pois é dúbia a ira que demonstrais, é súbito o gozo que sentis! Resta apenas o riso, frenético, em vosso rosto – resta apenas a miséria que demonstrais sem satisfazerem-se pelas nossas culpas! Culpas? Quem sois (o nosso riso responde, breve), quem, digam-me – quem? Sois a máscara que vestimos, o insano sono de sombras; o súbito enleio volátil que, embora tímido, recua às pressas dos sons da melodia serena que emitimos – eu e minha irmã-prece. Descobris a vossa própria verdade em nossos gemidos! Quereis os nossos seios em chamas — e chamais o mergulho eterno em nosso oceano perene.
Tolos! A doce língua de Helena serpenteou e me abrasou muito mais, fazendo-me entregar lágrimas e risos que jamais conhecereis. Nossa carne queima em gozo; e vosso gozo encontra sutil irmandade com o sofrimento que pretendeis que sintamos. Vossa voracidade vibra com a volúpia! Inda que o fogo nosso vos incinere, caireis no sublime acalanto de nossa voz — e estaremos eternas em vossas almas.

Por Ana Ulanin

Vagando por alguns caderninhos virtuais de que gosto muito encontrei este texto que acho maravilhoso. ;)