[Dia 0] e cartas pra ninguém (continuação da série "cartas pra ninguém". Marcador)

Muitas vezes durante estes dias tens me perguntado por onde anda a ternura, e aquele olhar mais de dentro e tão compreensivo, aquilo que invocava tantos outros sentimentos bons... triste constatação,eu não sei mais soletrar isso ...deixei-me ir sem exílio quando percebi o tempo,esse palco, arrancando de mim todas as fantasias e mascaras sem piedade.Tornei-me feia e inadmissível(a pensar num instante de desespero que a morte em vida me salvaria de tanta dor)diante dos meus próprios olhos.Deitei no chão todas as armas e armaduras, e lá deitei também sobre o meu cansaço de e pelas lutas,até mesmo as mais impossíveis desse meu Eu mais profundo, pelas quais tinha fé.Mas sabe,fé essa que perdi naquilo que um dia me tornou grande, (quase) invencível nos meus propósitos : o que um dia foi tão puro e terno quanto nuvens de algodão,o que foi luz contida em girassóis,um pensamento bom dentro das madrugadas escuras e longas do meu ser,o meu tudo equilibrado na alegria de pertencer e ser fiel a isso, a promessa de um momento de felicidade única em uma vida inteira de contradições,não mais que isso... É verdade,não sei mais contar os dias um a um...vem aos montes,como água invadindo sem me dar a chance de respirar. De certo aqui dentro, o que sei hoje é que aprendi o medo, o cruel medo de me magoar, de me fazer sangrar, do sofrimento de não ser respeitada pelo que sou... o medo que me impedirá de arriscar,a sentir, vivenciar nas entranhas o que de mais bonito me desperte,assim como um grito mudo e absurdamente dilacerante...e o pior sei ,que é esse medo que irá conduzir-me até o término de mim.
Não, não se apresse a pensar... eu não falo sobre amor e abandono ... é muito mais que isso,falo de perdas do meu ser... Falo do que seja doar-se sem reservas, nua, crua, inteira... sem medos, para aquilo em que se acredita ,não importando nem quando nem por quê, mas a quem ...e ainda assim,dentro disso tudo tornar-se nada,nem mesmo poeira.

Brasília,14 março de 2011
Lanayash