[do que me toca a alma]e o coração essa madrugada
Hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo.
Meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor,
uma carta à mulher que vive com ele,
cozinha para ele e lava a roupa para ele,
faz amor com ele e parece sua sombra.
Meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher,
entra em casa pela janela e não pela porta.
Por uma porta se entra em muitos lugares,
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo.
Mas não no mundo,
nem numa mulher, nem na alma,
quer dizer, nessa caixa ou nave ou chuva
que chamamos assim.
Como hoje, que chove muito,
e me custa escrever a palavra amor.
Porque o amor é uma coisa
e a palavra amor é outra coisa,
somente a alma sabe onde os dois se encontram,
e quando, e como,
mas o que pode a alma explicar?
Por isso meu vizinho tem tormentas na boca,
palavras que naufragam,
palavras que não sabem que há sol
porque nascem e morrem na mesma noite em que amou,
e deixam cartas no pensamento
que ele nunca escreverá,
como o silêncio que há entre duas rosas,
ou como eu, que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva,
à chuva, ao meu coração desterrado.
Juan Gelman




