[do exercício]da espera

A luz atravessa o quarto entre as duas janelas, e é sempre a mesma luz, embora de um lado seja o poente – onde está o sol, agora – e do outro o nascente – onde o sol já esteve. No quarto juntam-se poente e nascente, e é esta luz que confunde o olhar, que não sabe em que hora se situa a luz primeira. Então, olho a linha que percorre o espaço entre as duas janelas, como se não tivesse princípio nem fim; e o que faço é puxar essa linha para dentro do quarto, e enrolá-la, como se me pudesse servir dela para atar as duas extremidades do dia ao meio-dia, e deixar que o tempo fique parado entre duas janelas, a poente e a nascente, até que o fio se volte a desenrolar, e tudo recomece.
Nuno Júdice