"...nunca me preocupei em reproduzir exatamente aquilo
que vejo e observo a cor serve para me exprimir Théo: amarelo terra, azul corvo, lilás sol,
branco pomar, vermelho Arles... Sulfurosas cores cintilando sob o
mistério das estrelas na profunda noite afundadas onde me alimento de
café, absinto, tabaco, visões e um pedaço de pão, Théo, que o padeiro teve
a bondade de fiar. O mistral sopra mesmo quando não sopra, os pomares
estão em flor, o mistral torna-se róseo nas copas das ameixeiras, Arles
continuou a arder quando tentei matar aquele que viu a minha paleta
tornar-se límpida, mas acabei por desferir um golpe contra mim
mesmo.Théo, cortei-me uma orelha e o mistral sopra
agora só de um lado do meu corpo, os pomares estão em flor e Arles,
Théo, continua a arder sob a orelha cortada...
Por fim Théo, em Auvers voltei a cara para o
sol apontando o revólver ao peito senti o corpo como um torrão de
lama em fogo regressar ao início num movimento de incendiado girassol."
A (suposta) última carta de Van Gogh á Théo




